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ENSAIOS

de escrita, culinária, economia e finanças, bem-estar e reflexões sobre parentalidade

  • Foto do escritorJuliana Machado

O caso do Uber

Atualizado: 19 de jul. de 2022

Estou de saída para o trabalho e chamo o Uber. Com o retorno das atividades presenciais em escala, essa agora é minha rotina uma vez por semana. Sigo caminhando até o ponto marcado, pensando que realmente não vale a pena ter um carro para me locomover uma vez por semana, já nem fazia muito sentido antes, agora é que não vale mesmo, ainda mais se pensar na gasolina. Essa é uma boa reflexão. Mas nem penso muito nisso, vou logo lembrando que esse regime de escala nem permite que encontre os amigos, o que era uma das poucas vantagens do trabalho presencial. Some-se a isso a mudança que eu faço toda vez porque agora não deixo tudo no trabalho, sei lá, vai que estraga. Sigo reclamando mentalmente.


Opa, tem um Uber aqui pertinho. Maravilha, estou com sorte. Eu sempre calculo uma sobra de tempo nessas minhas andanças, mas sou ansiosa e fico aflita. Nesse regime de escala, quem vai abre a porta da repartição, não pode atrasar. Não fossem as filhas em casa e eu sairia uma hora mais cedo talvez. Em 2 minutos isso está resolvido.


O motorista parou para abastecer. Ok, melhor isso do que pifar no meio do caminho. Quantos minutos se demora para abastecer um carro? Já passam de 5 e nada... um pouco em dúvida, mando mensagem: vai demorar? Ah, pronto, terminou. Ah não! Ele errou o caminho! Em Brasília os retornos nem sempre são simples. E agora? Quanto tempo vai levar para ele voltar? Mais 10 minutos? Socorro, minha sobra de tempo foi para o espaço! Que azar!

Situações estremas requerem medidas estremas. Cancelo a corrida, nervosa se conseguiria outra. Segundos eternos olhando a tela do celular. Consegui! A sorte voltou!


Moço gentil, vamos lá. Vejo no mapa que conseguirei chegar com tempo, minha sobra tinha voltado. Me acalmei.

Alguns minutos se passam. O que é essa vibração estranha que estou sentindo? Vejo uma luz estranha acesa no painel do carro. Bom, pelo menos não é a gasolina. Um barulho surge, o carro perde a aceleração. Outra luz acende no painel, agora muito parecida com a fatídica gasolina. A minha sobra de tempo de novo está se esvaindo e eu já estou aqui checando para quem vou avisar que não vou conseguir chegar. O moço sorri amarelo, calado. Eu suo e finjo normalidade. Será que não era melhor comprar outro carro mesmo? Se passar do Eixo Monumental dá para seguir andando, eu acho. De salto, no sol e calor seco de Brasília??? Vai ter de ser. Não vai mesmo ter ninguém lá para me ver descabelada e esbaforida. Nota mental de acrescentar um chinelo na minha mala de trabalho.



Eu vou é rezar aqui para ajudar esse carro a chegar no ponto final. Já estamos bem perto, daqui eu consigo dar uma carreira, penso, superestimando minha capacidade atlética. Faltam dez minutos, estamos quase lá. O moço engatou uma banguela na descida, meu Deus, é hoje. Já viu banguela em Brasília? Pois é, não é muito eficiente não e esse carro vai parar a qualquer momento, certeza. Pausa para refletir porque que chama banguela quando o motorista aproveita o embalo da descida sem acelerar. Nota mental: pesquisar inutilidades quando houver tempo. Te concentra na reza, menina!


Ao som de apitos e rodando uns 40 quilômetros por hora, chegamos, enfim. Obrigada, senhor, bom trabalho - eu digo. Queria mesmo é dizer: boa sorte, espero que o senhor consiga chegar ao seu destino! E que ele seja logo uma oficina... e um posto de gasolina. E eu agora com pena dele porque com o preço da gasolina essa deve ser a sua rotina sofrida de todo dia... e só para ganhar o suficiente... que vida... Vou dar uma gorjeta porque é só o que posso ajudar mesmo...


Entrei na repartição, olho o relógio. Faltam 5 minutos. Maravilha, dá tempo de ser gentil com todos e pegar um café. Aviso a chefe, abro as portas, e sento na minha mesa de trabalho, respiro aliviada e pronta para mais um dia de trabalho presencial. Consegui.

Naquele dia, como nos outros, ninguém apareceu.

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