top of page
Image by Andrew Neel

ENSAIOS

de escrita, culinária, economia e finanças, bem-estar e reflexões sobre parentalidade

Louca

  • Foto do escritor: Juliana Machado
    Juliana Machado
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

Era um domingo de sol e céu muito azul.

Quando acordou, sentiu o cheirinho de café rondando a casa. Ele devia ter acordado mais cedo para fazer o café, o dia era dela. Mas tudo bem, ele havia comprado flores e chocolates e as crianças tinham feito cartões.


A casa estava silenciosa. Em cima da bancada da cozinha, viu o almoço da família já organizado: o arroz colorido que o mais velho gostava, as passas separadas para evitar litígios, a farofa favorita da avó, a carne assada com batatas que ele e os avós pediram, a sobremesa escolhida pela caçula da família. Seria um almoço bom.


Serviu-se de café, buscou um pãozinho e sentou-se. Onde estava ela?

Não parecia faltar nada para o almoço, a casa estava em ordem, ontem mesmo ela havia dito ter providenciado tudo. Foi quando foi buscar a manteiga que viu o recado na porta da geladeira: Fui comprar cigarros.

Que estranho, pensou ele. Ela nem fuma.


As crianças acordaram, cada uma querendo algo diferente. Atendeu a quem pode e foi tomar seu banho.

O tempo passou, os convidados começaram a chegar. Os avós paternos foram os primeiros, seguidos dos maternos. A casa, antes arrumada, já estava demonstrando a presença de crianças. A avó paterna buscou o local menos povoado de migalhas, a materna tentou dar uma organizada no sofá, sem muito sucesso. Despachadas para o quintal, as crianças ainda de pijamas agora tomavam um belo banho de mangueira. Que delícia.


— Cadê ela? — perguntou o avô.

— Saiu para comprar cigarros e ainda não voltou.

— E ela fuma?

— Não que eu saiba.

— Minha filha jamais fumaria, ela não é dessas — respondeu o outro avô.

— Ué, então por que ela foi comprar?

— Deve ser para algum convidado, eu acho — respondeu, baixinho.


A avó materna levantou-se, olhou a casa, foi até a cozinha. Viu o almoço organizado na bancada e pôs o dedo. Duro feito pedra, tudo congelado. Balançou a cabeça, frustrada, que sem juízo. Chamou o genro: Isso aqui não vai descongelar a tempo do almoço. O que você fez com ela? Nada, jurou ele.


Decidiram esperar mais um pouco, ela devia ter um plano. Ele acendeu o forno, colocou as coisas dentro e foi para a sala receber os irmãos e sobrinhos que chegavam. A avó paterna permanecia sentada, os avós discutiam alguma coisa na varanda, os convidados foram chegando desconfiados. A outra avó foi juntar os netos para brincarem juntos e assim o tempo foi passando.

De repente, um cheiro forte veio da cozinha. A terrina onde estava o arroz quebrou-se dentro do forno, o arroz que caiu queimou e o cheiro invadiu a casa. Puxa vida, custava ela ter colocado na vasilha própria? A carne não havia nem descongelado direito ainda, mas já cheirava a queimado também.


As crianças começaram a gritar de fome, exigindo atenção e alguns biscoitos. Sem saber o que fazer, os adultos cederam. A pequenina quase se engasgou com um pedaço enorme na boca e foi então que perceberam que não havia bebida na casa. Desentalaram a menina com um resto de café que sobrou da manhã. As outras crianças pediram também. Os adultos cederam. Lá se foram muitas bolachas e café.

Liga para ela, diz para trazer bebidas e gelo no caminho de volta. Ela não atende? Que irresponsável. Onde está o telefone daquele restaurante aqui perto? Vamos pedir algo ou dá tempo de ela cozinhar de novo? Esse almoço aí já era. Será que ela não traz no caminho de volta? Liga para ela. Ah é, ela não está atendendo... E mensagem?


Pediram pizza, era o telefone que tinha na porta da geladeira. As crianças pediram sabores doces e só assim houve paz. Chegaram mais convidados. Quanta gente! Como ela fez isso? Ah, não foi ela. Bem-vindos! Os adultos se olhavam em silêncio - uns irritados ainda, outros já preocupados. Nunca na história da família algo assim havia ocorrido. As avós trocavam farpas oculares.

As crianças pediram mais mangueira, mas não havia mais roupa apropriada. Vão assim mesmo, cedeu um tio ali próximo.

O caos foi se instalando na casa à medida em que o café somado ao doce ia fazendo efeito no metabolismo dos menores. Eles corriam, gritavam e comiam, cada vez mais e mais. O pai já tinha conversado, gritado, colocado de castigo. Em vão. Alguns riam, achando graça da situação, outros assistiam futebol na tv. Os avós fingiam naturalidade, mas alguém surpreendeu uns rezando, no canto, sabe Deus pedindo o que. Os convidados se perguntavam que horas poderiam ir embora sem que fosse muita deselegância.


A pizza chegou e, por alguns minutos, houve paz. Uns com papel toalha, outros com prato e talheres, cada um virou-se como pode. Passaram mais café e, logo depois, constrangidos, alguns disseram precisar partir, desejando a todos um feliz dia e que a paz retornasse à casa. Ele pediu desculpas, não sabia mais o que fazer.

Lá pelo fim da tarde alguém sugeriu ligar para a polícia, outro para os hospitais. Algo precisava ser feito. Os avós dormiam cada um numa ponta do sofá, a avó tentava colocar ordem nas crianças, em vão. A polícia avisou que não era caso de desaparecimento, porque ela era adulta e não fazia 24 horas, os hospitais não registraram nenhuma entrada com o seu nome.


Não havia jantar, a roupa não havia sido lavada, a casa estava suja e nem o material da escola do dia seguinte foi encontrado. Achei! Gritou o pai num momento de euforia. Todos foram em sua direção entre aflitos e esperançosos. Era a receita médica do pediatra. Ele lembrou que as crianças tomavam um remédio noturno, mas não lembrava qual. Era uma antiga, mas devia ser a mesma coisa, pensou ele.

As crianças viram a oportunidade no cansaço adulto e pediram novos jogos de aplicativos, todos pagos. Almejando algum silêncio e alguma ordem, os adultos cederam. E o silêncio se fez. Descabelados, cansados, esfomeados, sentaram-se todos na sala, enquanto um dos irmãos foi dar uma volta pelas redondezas para assuntar, sem levantar suspeitas ou motivos para fofoca – como advertiu a avó. Já não se olhavam, perdidos nos próprios pensamentos. Era uma temeridade.


Já era noite quando a avistaram voltando, a pé, com apenas uma sacola nas mãos. Parecia bem, embora um pouco cambaleante. Ela entrou em casa e sorriu surpresa ao ver todos ali reunidos. Viu também em cima da mesa os restos de pizza e café ao lado das flores já meio murchas, do chocolate aberto e derretido e das cartinhas. Feliz dia, ela disse. Abriu a sacola, puxou um maço de cigarro fechado e completou: Foi difícil, mas eu consegui! E riu com a cabeça inclinada para trás, enquanto deixava o pacote na mesa ao lado das flores. Deu um beijo na cabeça de cada criança, entrou para o seu quarto e dormiu, do jeito que estava, sem nem trocar de roupa ou tomar banho. Impensável!


Foram todos embora, sem saber o que pensar ou falar. O pai respirou aliviado, pelo menos a rotina poderia voltar ao normal no dia seguinte. O resto se ajusta, concluiu em pensamento. Deitou e dormiu também, exausto.

Acordou no dia seguinte com um cheirinho de café conhecido. Foi caminhando devagar para a cozinha, pensando se o dia anterior não teria sido um sonho, um pesadelo. Louca. Que justificativa ela teria?


Entrou na cozinha, avistou a cafeteira finalizando o seu trabalho e, do lado, um bilhete: Fui comprar pão.


***

Feliz dia, mães!

Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.
  • Instagram ícone social
  • Facebook
  • Preto Ícone LinkedIn
  • Twitter

©2022 por Ensaios da Ju. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page