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ENSAIOS

de escrita, culinária, economia e finanças, bem-estar e reflexões sobre parentalidade

Ainda assim, feliz 8M!

  • Foto do escritor: Juliana Machado
    Juliana Machado
  • há 9 horas
  • 6 min de leitura

 

Ontem eu fui fazer uma prova de concurso público. Um concurso grande, concorrido. Um que resolveria a minha vida profissional para sempre, seja porque eu exerceria uma função que me agrada, seja porque a parte financeira estaria bem guarnecida.

Ainda assim, eu não estudei.

Veja bem, não é que eu não quisesse estudar. Eu gosto de estudar e eu queria muito essa vaga, essa oportunidade – sei que faria muito bem esse trabalho.

Mas eu não tive tempo, não tive espaço. As filhas adoeceram, mudaram de escola, o marido acrescentou um trabalho na sua já corrida rotina, a diarista se ausentou por várias semanas, entramos em inspeção no meu trabalho.

É vida que chama, né?

E olha que eu tenho muitos privilégios, reconheço sempre.

Mas não deu. Ainda traumatizada por experiências passadas nas quais me dediquei muito e fui excluída sem muita justiça de outras seleções, carente de horas de sono e de saúde em diversas áreas, não consegui fazer ainda mais do que a rotina me demandava diariamente, sem cessar.

Ainda assim, fui fazer a prova.

Dias antes, como sempre faço, fui checar o local da prova. A gente sempre checa essas coisas, né? Não dá pra simplesmente ir, tem que checar tudo, vira hábito.

Não havia um local amplo de estacionamento, mas havia luz na rua. Não havia muito movimento nas proximidades, mas havia um terminal de ônibus ao lado (o que nem sempre é vantagem, mas eu considerei assim).

Me programei então para chegar bem cedo e conseguir uma das vagas no estacionamento que tinha lá. Cheguei antes dos portões abrirem, não quis arriscar. Consegui minha vaga, entrei com calma e, quando me sentei na sala da prova me dei conta que esperaria 1h30 para fazer a prova. A prova tinha duração máxima prevista de 5h pela manhã e, quando ela começou, eu já estava ali há 1h30. Já estava cansada, as costas já reclamavam.

Eu sabia que seria assim, levei inclusive remédio comigo (que não usei, para não prejudicar eventualmente o raciocínio, nunca se sabe).

Ainda assim, achei melhor não arriscar e fui cedo mesmo.

A última pessoa a entrar na sala chegou alguns minutos faltando para fecharem os portões. Era um homem, claro. Quando a prova começou para ele, ele não estava cansado da cadeira, ele não estava esperando fazia 1h30, ele não precisou chegar mais cedo.

É óbvio, mas quero deixar registrado, isso não é um julgamento sobre aquele homem especificamente. Não sei quem ele é, nem sobre sua vida e nem os sacrifícios que ele fez para estar ali. Isso é uma reflexão sobre a vida, a nossa vida.

Olhei as pessoas naquela sala. De verdade não vejo concorrentes, mas pessoas querendo de alguma forma melhorar a vida de maneira digna, homens e mulheres, a maioria com certeza se esforçou e fez o melhor que podia para estar ali. Mas, embora ali fosse a linha de chegada – igual para todos -, sei que a linha de largada é muito diferente para homens e mulheres.

Ainda assim, eram mais mulheres naquela sala.

Um concurso público ainda nos parece uma maneira mais justa de alcançar uma atividade profissional digna. Não nos excluem sumariamente por sermos mulheres, por sermos muito novas ou muito velhas, por não sermos bonitas ou sermos bonitas demais, por sermos gordas, termos alguma deficiência, filhos, etnia e qualquer outra coisa que nos dá o colorido que temos na coletividade.

A banca examinadora não sabe que somos mulheres e isso é visto como bom. Em geral, também acho que é.

Mas aí a banca não sabe que nós que estamos ali deixamos a casa arrumada e o almoço planejado para os que ficaram. Ela não sabe também que, além de estudar, cuidamos da casa, das pessoas, do trabalho. Ela não sabe as nossas lutas, as nossas dores e os nossos esforços. E ela nos iguala a quem, também em regra, não faz nada disso. Nossa linha de largada é bem mais lá atrás...

Na hora do almoço, voltei em casa. Meu marido havia cuidado das crianças e providenciou almoço, além de uma barreira pra que elas não atrapalhassem o pouco tempo de descanso que eu tinha. Ele fez o que conseguiu, do jeito que conseguiu. Sei que muitas mulheres não contam com isso. Privilégios meus, eu sei (e você vê o que considero como privilégio?).

Ainda assim, um homem que voltou a sua casa, certamente encontrou a casa na rotina própria dela, a refeição feita como sempre, a casa e a família cuidada como sempre. Ou ele nem voltou lá, não era necessário - era mais fácil comer por ali em algum lugar próximo.

Eu voltei cedo para a segunda etapa. Esperei novamente 1h30 para o início da prova. Novamente foi um homem o último a entrar.

A prova foi dura, difícil. Mas estava adequada ao cargo e ao concurso.

Não tenho chances, sabia que não teria. E, do ponto de vista do concurso, está certo que eu não tenha chance porque eu reconheço que eu não estudei para ele.

No entanto, do ponto de vista da vida e da sociedade, não consigo deixar de pensar que ignorar o gênero das pessoas não é necessariamente mais justo, mais democrático. Essa conta aí da meritocracia não fecha. Se a linha de chegada é a mesma, mas a de largada é tão diversa, não há justiça e nem a melhor escolha é feita.

E a mesma análise é possível em qualquer situação em que se defrontam um homem e uma mulher. Garanto.

Ainda assim, eu amo ser mulher.

Já pensei que digo isso porque não tenho escolha - não dá para apertar o botão do reset e recomeçar a vida como homem. Pelo menos não essa vida.

Não é isso. Eu amo ser mulher por conta de coisas que são realmente inerentes à experiência feminina – a nossa sensibilidade, o nosso corpo, a possibilidade de gerar vidas, a nossa relação com o transcendente e por aí vai.

Já a parte que eu não gosto da experiência feminina não tem nenhuma relação com ser mulher, mas sim com a sociedade em que vivemos, no tempo em que vivemos. A sociedade nos suga, nos consome, nos explora até não termos mais sentido como pessoas e, quando marcamos um dia para celebrar nossas conquistas e nossas lutas, ela dá um jeito de explorar também isso e nos vender chocolates e flores, como se isso fosse suficiente, quando não é desconto em procedimentos estéticos (porque não bastamos como somos, não é mesmo?)...

Ainda assim, eu quero os chocolates.

Quero as flores, os amores, os cartões bonitinhos. Quero os perfumes, as massagens, os spas, os descontos, os almoços e também os jantares. Quero tudo e não dispenso nada. E quero já.

Mereço isso e mereço mais, bem mais.

Eu quero que meus dias sejam para viver e minhas noites sejam para dormir. Não quero só servir ou sobreviver.

Quero me sentir segura e ser livre, quero apoio e quero possibilidades.

Quero poder falhar e não achar que é o fim do mundo, que eu não perco todo o meu valor porque não atendi às expectativas de alguém.

Quero ser valorizada por ser quem eu sou, do jeito que sou, sem “mas”.

Não quero mais cobranças, não quero mais olhares tortos e não quero julgamentos sobre o meu corpo. Não quero ser vítima de nada, não quero ter que pedir permissão o tempo todo e não quero ser heroína de ninguém.

Quero ser só eu mesmo e que isso seja suficiente.

Estamos longe disso, eu sei. E eu, mãe de duas meninas, tenho pressa...

...

Ainda assim, o 8M é um dia político, eu diria o mais político de todos eles.

E faz parte da política celebrar as vitórias, reconhecer os caminhos percorridos, reverenciar aquelas que lutaram antes de nós. A alegria contagia, o amor conquista.

Celebremos, então. Um brinde a todas nós, que lutamos com garra diariamente.

Que o nosso futuro seja possível, a luta nem sempre tão árdua, e que tenhamos múltiplas possibilidades de ser quem somos. E que isso baste.

A você, que me deu um chocolatinho no domingo, obrigada. Não comi, porque sou alérgica, rs, mas agradeço de coração a lembrança. Faça mais vezes com tranquilidade. Saiba, no entanto, que não é suficiente, não me comove e não me cala e eu quero mais.


E eu tenho um plano.


 _____

 

Obs. 1: Sim, eu sei que várias coisas que eu citei como da experiência feminina são construções sociais. Ainda assim, são da experiência feminina.


Obs. 2: Eu não pulo comemorações, gosto de todas elas. Mas não tive ainda o meu 8M em casa, por causa do concurso. Adiei, não pulei. Já ganhei um presentinho do marido e das filhas, mas fui eu mesma que escolhi e, portanto, era o que eu queria, rs. Eles são fofos e bem-educados. =D

De qualquer forma, eu me presenteio também porque a sociedade pode até falhar em reconhecer o meu valor, mas eu mesma não posso (a terapia faz efeito, viu?).


Obs. 3: Esse não era o texto que eu queria neste 8M, mas foi o texto possível. Se a vida permitir, o texto que eu queria de verdade vem na sequência das semanas. Aguarde, sob sua conta e risco.

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