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ENSAIOS

de escrita, culinária, economia e finanças, bem-estar e reflexões sobre parentalidade

  • Foto do escritorJuliana Machado

Diário de uma adolescente

E o peso das memórias



Eu estava lendo o Diário de Anne Frank, conhece?

Ele é realmente um diário, escrito por uma menina nos seus 13/14 anos, judia, no período em que ela, sua família e mais outras pessoas, se escondiam dos horrores nazistas num pequeno espaço preparado para eles, durante a 2ª Guerra Mundial. A menina narra basicamente o dia a dia deles, suas desavenças, seus medos, o dia a dia, questões políticas e até amores surgidos. Reparou na idade? Pois é.

O livro estava na minha lista faz anos. Comprado até. Mas é que é difícil para mim, em toda história sequer remotamente inspirada em fatos reais, não pensar naquelas pessoas e no fim que tiveram. Vidas reais, dores reais... Então para ler uma obra dessas, apesar da sua leveza, eu deveria estar num momento em que isso não me afetasse tanto. E esse momento nunca chegava.

Nem nunca chegou. Sim, eu li o livro e continuo aqui, pensativa na Anne e em todos os outros que sofreram com a guerra. Choro de raiva e de tristeza pelas vidas perdidas, talentos não descobertos, amores não vividos. Como pode a decisão de homens tão distantes afetar de maneira tão nefasta a vida de tantos? Esqueceram eles que são todos humanos?

Mas outras coisas me impressionaram muito nessa leitura/experiência. E o que me tocou profundamente foi o talento da Anne para a escrita. O seu diário é de uma riqueza de detalhes incrível e ela, com muita leveza, vai nos mostrando o seu dia a dia, as dificuldades, as desavenças, as incongruências daquela vida e daquelas pessoas. A disciplina dela para escrever com uma frequência que nos permite acompanhar o desenrolar das histórias é inacreditável, ainda mais se você pensar as condições nas quais ela escrevia...


Essa é a Anne Frank


Isso me fez lembrar que eu também sempre escrevi. Desde criança.

Não com a disciplina da Anne, e com certeza também sem o talento ou a visão dela. É certo também que ela refletiu em questões mais profundas do que eu. O vocabulário dela, se a tradução que li lhe fez jus, era bem mais amplo que o meu. Mas eu escrevia. Tive inúmeros diários, escrevi muitas cartas.

O problema é que eu tinha preguiça de escrever. Eu começava os diários e lá pelo terceiro dia o ímpeto já ia sumindo. Não conseguia também ver interessância nos fatos da minha vida. Eu tinha muitos compromissos, fato, talvez se quisesse faltasse até tempo para escrever mais, mas muitos compromissos não quer dizer vida interessante. Que o diga o Príncipe Charles, ops, Rei Charles. E eu tinha verdadeiro pavor que alguém lesse meus desabafos mais profundos. O risco era grande demais. Então eu parava. Ainda assim escrevi um bocado.

Na adolescência eu só escrevia sobre as minhas dores e amores, as minhas tristezas de estimação. Eu praticamente só escrevia quando estava triste, por uma necessidade de organizar as ideias e provavelmente também por vergonha de desabafar aqueles pensamentos com quem quer que fosse. Ai como eu sofria, meu Deus! Era a briga com a irmã, a paixão não correspondida, as amigas mui amigas, os desafetos, os pais que não me compreendiam... era muito difícil ser eu!

A maior parte desses textos eu escrevi à mão e guardei bem guardado em uma caixa no fundo do armário. Até onde eu sei, ficaram a salvo da leitura pelos familiares (ou os familiares ficaram a salvo da leitura deles?) e eu prefiro continuar acreditando assim. E fui guardando o registro de cada etapa ou experiência vivida como quem guarda um grande tesouro. Com o tempo, aqueles registros foram crescendo, ganharam companhias digitadas e a minha pequena caixa de recordações virou um grande arsenal de pequenos e grandes textos.


E mesmo com os anos correndo soltos e a vida mudando 180 graus, sempre que eu relia algum desses textos eu conseguia sentir de novo aquilo que ia dentro de mim naqueles momentos, mesmo não conseguindo mais ver tanta dor na vida singela daquela adolescente. Assim como a Anne conseguiu me fazer sentir um pouco do que foi aquela vida, eu conseguia sentir o que era aquele meu momento. E me via como uma menina solitária, cheia de dores e dissabores. Às vezes dá um pouco de vergonha, às vezes dá graça. Normalmente me compadeço da solidão que no fim eu sentia. É sempre um momento de ligação com a menina que um dia eu fui.

Que eu fui.


Nunca consegui me desapegar dessas minhas memórias. Quando eu deixei a casa dos meus pais e me mudei de cidade, elas vieram comigo. Já não sou aquela faz tempo, mas ela ainda reside em mim, por mais sofrida e solitária que seja. Ainda assim, eu guardava tudo.

Um dia, numa limpeza geral da casa e da vida, eu resolvi que o dia havia chegado. Talvez não de jogar tudo fora de vez, mas de digitalizar e guardar para futuras reflexões mais produtivas do que uma velha caixa cheia de textos desconexos e sem sentido. Quem sabe a terapia faria bom uso. Organizei tudo, baixei um aplicativo para digitalizar pelo celular e comecei.

A cada digitalização, eu rasgava o papel. Quase um ritual. Só não pus fogo porque sei lá, vai que o seguro não cobre “motivo do incêndio: queimar memórias”. Passei um tempão relendo, digitalizando, rasgando. Quando enchia um saco plástico, eu imediatamente jogava na lixeira externa e voltava para continuar o processo. Sem olhar para trás. Sempre tive um grande prazer em rasgar e jogar papel fora. E assim eu ainda preservava a memória. Nem sei bem para quê ou porquê.

Ou eu achava que preservava.


Já quase no final do processo, percebi que o aplicativo que eu estava usando não havia salvado mais da primeira metade das digitalizações que eu havia feito.

Subitamente, um terror se apossou de mim naquele instante. Toda a minha escrita, minhas memórias, minhas dores, meus pensamentos... de repente se perderam, literalmente haviam ido para o lixo. Um aperto no peito, uma vontade de gritar, de correr, de ir buscar cada pedacinho de papel e grudar tudo de novo, pedindo perdão por ter me despojado daquelas preciosidades.

Pensei isso e ri.


Não vou mentir, eu tentei mesmo. Mas o universo conspirava e até o lixo do condomínio já havia sido recolhido naquele momento. Não tinha jeito.

Parei um instante. Olhei a cena inteira armada na minha sala: a caixa aberta com alguns poucos textos ainda não digitalizados, a lixeira vazia, o celular, eu com a mão no peito, bem dramaqueen. Suspirei e ri de novo. Pronto, a vida se encarregou daquilo que eu sozinha não havia conseguido me livrar – o peso daquelas memórias, a frustração de lembrar de mim apenas ou sobretudo por aquele prisma. Aquelas memórias agora estavam onde deviam mesmo morar: dentro de mim, dividindo espaço com uma porção de outras histórias. Não há mais perigo de alguém as ler, me conhecer nesse espaço e sob essa lente de tristeza exclusiva, nem eu tenho mais compromisso com aquelas dores e ressentimentos. Eu não era somente aquela menina das cartas.

Senti uma leveza nova e para mim desconhecida. Senti espaço.

Respirei fundo, aliviada até.

Bola para frente, vamos criar e registrar novas memórias. Felizes, quem sabe, dessa vez.

Ou, a lá Anne Frank, a beleza simples do cotidiano. Já será bem melhor.

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