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ENSAIOS

de escrita, culinária, economia e finanças, bem-estar e reflexões sobre parentalidade

  • Foto do escritorJuliana Machado

Confidências no salão

Atualizado: 6 de dez. de 2022

E o assunto é muito sério.


Eu fugi da notícia e dos comentários como pude. Já não assisto tanto os noticiários por motivos de saúde mental, então achei que conseguiria ficar imune aos sentimentos ruins que saber disso me traria. Eu sabia do que se tratava, mas não muito mais que isso e queria continuar assim. Mas uma tarde no salão, acompanhada de tantas outras mulheres, e com o TV aberta ligada o tempo todo, não me permitiria passar imune...

E lá estava ela, a notícia fatídica, sendo atualizada a cada intervalo...


Os comentários entre nós se seguiram, xingando o criminoso de todas as formas possíveis e discutindo os detalhes mais atuais, todas penalizadas com a moça. Eu segui calada, observando. Com uns 5 minutos de conversa, uma das 6 mulheres ali presentes, entre funcionárias e clientes, narrou um abuso sofrido por um enfermeiro em um hospital público. Assustada com a narrativa, perguntei: o que você fez? Nada, disse ela, nem sabia que podia fazer algo... chorei muito só... Ela foi seguida por outra funcionária, que narrou também um abuso sofrido por um médico. Ela disse: a funcionária dele estava ali na sala, como aquilo poderia ser um abuso? Mas era. Na sequência, uma cliente narrou uma tentativa de abuso quando ainda era criança, também em um hospital. Sua mãe horrorizada espantou o médico e, com isso, foram expulsas do hospital...


Eu mal respirava ouvindo aqueles relatos. Mas vinha mais. Metade daquelas mulheres narraram ali também abusos sofridos por familiares e pessoas próximas à família, que as marcaram profundamente e as afetam até hoje...

Em comum, as histórias mostravam mulheres sendo vítimas de abusos por homens que tinham ou o dever de cuidado ou a estima dos pais e responsáveis por elas; mulheres que mal sabiam que estavam sofrendo abusos, vítimas de crimes mesmo. Achavam que simplesmente deveriam aceitar caladas, viesse o abuso de quem viesse. Uma dor que dura até hoje, que não foi esquecida. Uma sensação terrível de impotência e de que não seriam acolhidas em sua dor, caso falassem. E elas queriam falar sobre isso, não há outro motivo para que numa conversa rápida entre pessoas sem qualquer intimidade o assunto ganhasse tamanha proporção de confidências entre as amigas mais íntimas...

Eu só conseguia pensar: não adianta eu fechar os olhos – está bem mais perto do que poderia supor...



Então cheguei em casa e fui ler artigos mais profundos sobre o assunto. Sim, a notícia ainda revira demais o meu estômago, gerando ânsia de vômito e de violência até, e eu evitarei detalhes do caso o quanto eu possa. Mas entendi que o buraco está bem mais embaixo e que todos nós como sociedade temos responsabilidade nessa conta. E tem muito o que pode ser feito e que precisa ser feito.


O recado que a notícia nos traz, que as enfermeiras maravilhosas naquele parto atenderam e que as mulheres no salão nos dizem é que é urgente – devemos ouvir mais e falar mais sobre isso. E eu, mãe de duas, tenho pressa, muita pressa.

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