Sobre fake news, ou não
- Juliana Machado
- 30 de mai.
- 4 min de leitura
E a checagem de fatos nossa de cada dia.

Menina, a coisa mais estranha aconteceu comigo outro dia. Um tapa da vida na minha cara que até agora me deixou com os cabelos em pé e as barbas de molho. Quase ligo e marco sessão extra de terapia. Quase.
Não marquei e vim aqui te contar, foi assim.
Estava eu conversando com amigos queridos mas daquele tipo que a gente vai pegar distância quando as eleições se aproximarem mais, sabe? É, daqueles que a gente ama, mas não aguenta mais as fakenews, os radicalismos e opiniões sem base alguma, entende? Sei que você tem vários por aí também.
Nessa altura da vida eu já aprendi que as pessoas são muitas coisas ao mesmo tempo e que se eu for limitar minhas companhias àqueles que concordam sempre comigo eu vou ficar bem sozinha e entediada, honestamente. Então eu não tenho muito problema em conviver com pessoas que pensam diferente de mim, não compro briga e normalmente me saio bem de enrascadas sociais (basicamente eu não dou corda e fujo na primeira possibilidade, rs). Desde que sejam pessoas de bom coração, tá valendo.
Então estávamos lá numa roda dessas e, sem nenhum aviso prévio ou sinal de perigo, surgiu uma notícia dessas conspiratórias da covid. Dentro de mim, revirei os olhos e pensei “ai, meu Deus, lá vem mais uma fakenews”. Por fora, cara de paisagem esperando o desenrolar do assunto e a primeira rota de fuga. Ouvi, calada, a história.
No fim, a amiga emendou “pergunta para o Marcelo, ele acompanha as notícias internacionais, ele vai te dizer. Foi na Universidade de Chicago, eu acho”.
A referência ao meu digníssimo me pegou de surpresa. Desde quando eu preciso da chancela dele para saber o que penso? E desde quando ele é mais informado do que eu sobre notícias seja lá de onde forem? Eu amo meu marido imensamente e o admiro cada dia mais, mas eu não preciso da validação dele para meus pensamentos. Se não for sobre tecnologia ou filmes, eu me garanto, pensei chateada, porém decidida. Não era a primeira vez que algo similar ocorria.
E foi aí que veio o tapa na cara.
Do outro lado da roda de conversa, sem que eu nem tivesse prestado atenção, o Marcelo acompanhava a história e comentou “foi na Universidade da Flórida”.
Verdade que eu falei que não preciso da opinião dele para formar a minha. Mas, se ele estava falando ali daquele jeito, ele já tinha feito o fact-checking, e ele costuma ser bem criterioso nessas horas, então a notícia que eu nem considerei considerar, era verdade. CHOCADA.
Meu mundo de crenças pessoais caiu.
Se já não sou nem um pouco boa em reconhecer o uso de IA em vídeos e imagens, agora também reconheço que não sou boa em julgar notícias conspiratórias. E as notícias vindas de grupos como aquele não poderiam mais ser imediatamente descartadas. Ao colocar tudo na mesma conta de “fake” errei igualzinho aqueles que eu julgava logo ali em cima. Que péssimo para mim, que me julgava intimamente superior, confesso.
No fim, eu preciso reconhecer que as pessoas têm seus valores e suas crenças, suas fontes e suas referências. E não é porque é diferente de mim que está errado e pode ser sumariamente descartado. Parece óbvio, né? Na prática, a teoria é bem diferente...
Em tempos tão difíceis, eleições se aproximando, achei que valia a pena dividir.
Te cuida!
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Obs. 1: Veja bem, não é que eu não considero a opinião do Marcelo nas minhas ponderações. Dividimos tudo um com o outro, inclusive opiniões, que aliás, costumam ser bem parecidas (exceto qual é o melhor capitão de StarTrek ou o escolhido de StarWars, onde não há consenso possível, mas isso é outra coisa). A questão é a amiga achar que eu preciso consultá-lo antes de saber o que eu devo pensar. Isso dói.
Vendo pelo lado positivo, acho que ela percebeu ao menos que a fala dela não era suficiente para mim. Ela sabia de alguma forma que eu não acreditaria sem checar. A checagem, no caso, era o Marcelo, rs. Ainda bem que eu escolhi bem meu companheiro.
Obs. 2: Recente eu andei empolgada com a missão dos astronautas na volta à Lua. Via imagens, acompanhava reportagens, me divertia com os memes e coisa e tal. Bem normal. Aí vi um vídeo supostamente feito por eles em que algo parecia se mexer voluntariamente na superfície lunar. Tá perfeito, pensei, mas vida na Lua? Descrente, porém querendo talvez crer, consultei o marido. Ele olhou e rapidamente disse: IA. Aceitei, resignada.
Na sequência, vi um outro vídeo em que um foguete volta à Terra e, na descida, ele parece fazer tipo uma baliza e encaixa direitinho no mesmo local da decolagem. Dá uma reboladinha e pow estaciona. Vi aquilo e pensei: IA, certeza, imagina se tem foguete que consegue fazer isso! Meu digníssimo estava ao meu lado, esticou o pescoço, olhou e disse: Não, esse é verdade, são os foguetes do Elon Musk, eles fazem mesmo isso. Pois é, então tá.




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