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ENSAIOS

de escrita, culinária, economia e finanças, bem-estar e reflexões sobre parentalidade

  • Foto do escritorJuliana Machado

Repertório de rede

Atualizado: 14 de dez. de 2022

Sobre músicas, redes e pertencimentos


1980 - A pequenina aí sou eu

Toda noite na minha casa havia um ritual muito específico e que indicava que a fatídica hora era chegada - a hora de dormir. Alimentadas, dentes escovados, armava-se a rede, ligava-se o ar condicionado e, devidamente empijamadas, íamos eu e minhas irmãs nos aboletar na rede com o papai.

Ele cantava para nós as músicas da sua juventude. Para mim sempre tinha "debaixo dos caracóis dos seus cabelos..." e aquela outra "Juliana, Juliana...", mas eram várias. E mesmo agora escrevendo eu o ouço cantando ao fundo. Dá uma paz... E sono. Rs.


Mas sabe como é a idade, né? A memória dele falhava, a letra da música sumia, até a própria música mesmo às vezes faltava. No entanto, com aquele ritual que adorávamos já estabelecido, como parar?

Foi aí que surgiu a novidade. Um grande livro branco, azul e amarelo. Lembro um pouco dele - era um livro de músicas cifradas da jovem guarda, produzido pelo Banco do Brasil eu acho. Eu não lia na época, ou pouca coisa, mas achava o máximo aquele livrão de cantar música. Papai nunca tocou nenhum instrumento, mas folheava e escolhia as músicas do dia. E meu repertório foi crescendo e incluía "meu bem, vê que dia lindo...", "naquela praça, naquele banco, as mesmas flores, o mesmo jardim" e "salve, como é que vai?"...

Quando dormíamos, mamãe vinha, nos recolhia e nos levava para nossas camas. E era assim todos os dias...


Então hoje eu conheço muita música boa e mais antiga por conta dessas horas no vai e vem da rede do papai. Até eu me espanto quando às vezes do nada toca uma música e eu sei cantar junto. Não sei os nomes delas, ou dos cantores, às vezes a letra vem só em pequenos trechos, mas conheço, canto junto o que sei com talento duvidoso e sinto sempre uma grande alegria quando isso acontece. Aí quando ocorre eu já sei: repertório da rede. De quebra a gente ainda refletia sobre algumas letras e seus significados.


Não sei bem quando isso acabou. Talvez porque ficamos grandes e não cabíamos na rede junto dele. Talvez porque houve o tempo das histórias, e ficamos exigentes quanto a elas (rs) e passamos aos livros, outro ritual noturno igualmente estimado. Também nem sei quanto tempo essa rotina durou, talvez nem tenha sido tanto tempo, mas foi tão significativa que a lembrança ficou bem guardada e é resgatada sempre que preciso de referências carinhosas...


Você que conhece o homem sério que é meu pai talvez esteja se perguntando se isso é verdade, se não é criação da mente infantil ou se eu estou floreando um pouco a memória. Mas eu lhe afirmo que não há muitas outras coisas que definam tão bem o meu pai quanto o fato de ele cantar na rede para as filhas e ainda hoje para os netos. Se ainda duvida, vá em frente e pergunte às minhas irmãs e à nova geração.

E digo mais: a rede lá em casa continua e está sempre armada. Acho que é um jeito de eles nos dizerem que estão ali para nós, se precisarmos de um colo, de uma embalada e de uma ajuda para relaxar e dormir - metaforicamente ou não, para nós mesmas ou para os nossos.


Queridos pais,

Obrigada pelo cuidado com o nosso sono noturno, em criar esses momentos mágicos, nos dar presença ontem e hoje e de quebra nos dar cultura também!


Foi revendo essas memórias que resolvi também aqui criar esses momentos musicais, à nossa maneira, já que não temos nem rede, nem livro grande de músicas já selecionadas e o que me sobra de boa-vontade me falta em talento musical. Então aqui vamos de aplicativo e escolhemos um cantor/banda por vez e vamos ouvindo as principais músicas no tempo de trânsito, nas atividades em casa e até me arrisco a cantar algumas de noite. Outro dia, minha pequena de 4 anos me pediu: "mãe, coloca a música do abraço". Eu sorri. Não é que funciona?


Viva Gilberto Gil, viva o Betoca e a Dorica! E viva a cultura brasileira - as músicas, as redes e os carinhos familiares!

Aquele abraço.


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*Texto escrito em 14/12/2021, levemente adaptado.

2022 - Estreando a rede da casa no melhor estilo vovô netinhas

Obs. 1: Reza a lenda familiar que quando eu queria realmente dormir, eu dizia: já tá bom, pai, pode parar de cantar que eu quero dormir. Rs. Ah a honestidade infantil! Mas não me recordo e não há provas, logo nego veementemente.

Obs. 2: A cena ainda ocorre hoje, mas com os netos. Rede + música + colo de vovô = estou para conhecer método mais eficiente para fazer criança dormir!

Obs. 3: Mudamos de casa e hoje somos orgulhosos donos e proprietários de uma bela rede, estreada, claro, pelo avô e netas.

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