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Image by Andrew Neel

ENSAIOS

de escrita, culinária, economia e finanças, bem-estar e reflexões sobre parentalidade

  • Foto do escritorJuliana Machado

O desenho nas mãos

Ideias simples para desafios complexos na vida pós-quarentena.


Foto em março de 2021

Oi, amiga mãe/amigo pai. Tudo bem por aí?

Eu vi o seu relato sobre as dificuldades que vocês vêm enfrentando na adaptação do seu filho na escola, mesmo com o ano já bem adiantado. Ele chora, resiste e parece uma dor tão grande que você duvida da decisão de deixá-lo ali e até da escolha da escola.

Eu sei bem o que é isso porque eu também vivi isso.

Claro que cada casa é uma casa e cada família é uma sem igual. Mas queria dividir com você a nossa experiência na esperança de que isso ajude nas suas reflexões como um dia ajudou nas minhas.


Quando as aulas retornaram depois daquele período mais intenso de quarentena, minha pequena exultou de felicidade. Vendo a sua desenvoltura e alegria ao retorno às atividades escolares, fiquei mais em paz, pois eu temia muito que o desenvolvimento social, tão importante nos pequenos, tivesse sido atrapalhado por esse período de confinamento forçado que todos passamos, mas que eles passaram nessa idade tão significativa de construção de laços e de aprendizagem de habilidades de convívio social...


Mas não durou muito. Passados alguns dias, veio a resistência a ficar, o grude, o choro, a angústia em ficar ali e que às vezes começava em casa, às vezes na noite anterior. Eu não entendia o que estava acontecendo porque eu sabia que ela ficava bem lá, eu acompanhava os registros, os relatórios e via a alegria estampada em seus olhos e atitudes e tinha convicção de ter escolhido uma boa escola, com bons profissionais. O que ocorria então?


Nada dói mais em uma mãe do que ver a cria chorar e não saber o motivo, não conseguir ajudar... Eu investiguei o que pude, mas nada parecia ser fundamento para aquela dificuldade...


Foi então que dividi a minha angústia com outras mães, um desabafo mesmo. E foi dali que veio a reflexão: a dificuldade talvez não esteja em ficar na escola, mas em ficar sem você – o problema não seria o ambiente escolar, mas a sua ausência nele.

Ah aquilo fez total sentido para mim! Não só já somos muito grudadas como na quarentena ficamos mais ainda juntas, tanto em quantidade de tempo, quanto em qualidade como também na ausência de outros cuidadores.

Ela sente saudade! E como não? Eu também sentia. Que alívio chegar a essa conclusão!


Como ajudá-la a lidar com essa saudade de maneira mais tranquila foi o questionamento que veio logo em seguida. Então eu ganhei uma dica preciosa de uma outra mãe: faz um desenho na mão dela e diz que quando ela sentir saudade é pra ela olhar o desenho e lembrar de você e que você vai voltar para buscá-la com certeza. A dica era preciosa porque era muito simples e eficaz e assim eu fiz.

O desenho variava de acordo com a escolha dela. Um coração, uma estrela, o pintinho amarelinho, nossas letras e até um mini relógio pra contar o tempo que faltava para ficarmos juntas de novo. Desenhava em uma mão, na outra, nas duas, nas minhas e teve época que eu desenhava até nas mãos das colegas (com a permissão das outras mães, claro). Virou uma farra e um ritual. Filha, se você sentir saudade, está tudo bem – eu também sinto. Olha o desenho e lembra que eu vou estar pensando em você também, que falta pouco para ficarmos juntas de novo e que eu te amo muito!

E nos separávamos mais em paz. Quase mágica. Quase. Rs.


Vou logo dizer que comecei usando uma caneta normal e evoluí para uma mais permanente, porque quando o desenho saía no meio do dia era um motivo a mais para choro e tristeza. Sei que não é dermatologicamente muito correto, mas uma batalha de cada vez, não é?

Tentei outras técnicas também, como dar uma coisa minha para ela levar para a escola e eu ficar com uma dela, mandar bilhetes dentro da lancheira, alterar os horários de buscá-la, fazer combinados, músicas, conversas com as professoras e tudo ajudou, mas o que funcionou bem mesmo foi o tal do desenho na mão.

Hoje já não faço mais, ela não precisa – um olho no olho, um eu te amo dito baixinho, um have fun, beijinhos e ela está pronta para ganhar o mundo. Mas até hoje quando temos alguma dificuldade nesse sentido o desenho nos salva.


A experiência me ensinou tanto! Entendi que nem sempre conseguirei evitar que a filhota tenha sentimentos tidos como tristes - ela terá seus desafios e isso é um fato, mas eu posso sim ajudá-la a lidar com eles. Aprendi que às vezes é necessário investigar mais fundo para descobrir a origem do comportamento dela, que ela também tem as suas camadas e nem sempre consegue expressar bem o que vai dentro (e quem consegue?), mas que isso também é aprendizado. Aprendi ainda que respeitá-la integralmente não é o melhor caminho, mas o único para desenvolver um ser humano pleno, capaz, livre, confiante e feliz. Compreendi que posso fazer essa caminhada junto com ela porque eu também tenho muito que aprender sobre lidar com esses sentimentos e desenvolver habilidades sociais. E, por fim, descobri que nós mães, apesar do que dizem de nós e de nossas loucuras, somos uma grande fonte de conhecimento, aprendizagem e sororidade.


A maternidade/paternidade é mesmo assim, né? Nas pequenas coisas, um mundo. Que seja mais leve e mais doce para todos nós!


Enfim, quis só dividir essa experiência com você, como aquelas mães fizeram comigo e a quem serei eternamente grata. Espero que ajude.

Boa sorte! Beijo, me liga!

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