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ENSAIOS

de escrita, culinária, economia e finanças, bem-estar e reflexões sobre parentalidade

  • Foto do escritorJuliana Machado

A perfeição e a solidão

Para a amiga com dificuldade na amamentação


Oi, amiga.

Eu li seu desabafo sobre as dificuldades na amamentação do filhote. Mastite de novo, né? Que dureza...

A sua dor bateu forte aqui. Não pela amamentação em si, porque eu também tive as minhas dificuldades, mas nem foram tantas, não posso reclamar ou comparar. Mas pelas reflexões que venho fazendo sobre as nossas dores e lutas diárias...


Sabe, dia desses estive na escola das meninas para conversar com as professoras uma questão de socialização da minha pequena. Nada demais, apenas queria compreender e acompanhar melhor alguns comportamentos que ela vem repetindo. Foi uma conversa boa, tranquila e nos entendemos muito bem. Lá pelas tantas, a professora falou: sabemos que a perfeição não existe, mas tem quem chegue bem perto! Eu sorri, sabia que ela falava da minha menina e quem não gosta de ouvir um elogio às crias, não é? Mas eu respirei e emendei: Eu não quero que elas sejam perfeitas, quero que sejam fortes... e livres.

Eu fiz questão de dizer isso, e por isso conto aqui para você também, porque reconheço só hoje essas duas crueldades que a sociedade faz conosco, e isso desde muito pequenas: ela faz crermos que temos que ser perfeitas para sermos amadas ou mesmo aceitas, e precisamos fazer isso sozinhas. Ela nos exige tanto! E nos separa...

Não quero isso para as minhas filhas, nem para mim e nem para você...


Eu sinto muito mesmo a barra que deve estar sendo por aí. Ainda mais no retorno ao trabalho e sendo você mesma uma especialista no assunto. Mais que ninguém você sabe a importância da amamentação, ninguém precisa falar disso com você...

Então eu te desejo força para ir até onde você conseguir porque todo esforço será válido pelo seu pequeno. Mas te desejo força também para enxergar o seu limite e saber aceitar com amor por você mesma quando ele chegar. Porque mais do seu leite, seu filho precisa de você, inteira e feliz, ele se nutre de você, da sua energia e a sua felicidade e o seu autoamor formam também a felicidade e o autoamor dele, e com certeza ensinam muito à sua pequena, que também te observa e se nutre de você.

De qualquer forma, sinto que você sairá mais forte dessa luta, talvez até mesmo mais capaz de compreender as tantas mulheres que você ajuda diariamente. Deus é sábio e amoroso, e olha por nós a todos instante, especialmente nas horas de luta e dor!


Desejo a todas nós que encontremos espaços de respiro e que paremos de pedir desculpas a cada desabafo. Este é um espaço de bem-querer, de empatia, sororidade. Precisamos usá-lo com mais frequência até, dividir nossas angústias, nossas lutas. Somos mais fortes quando juntas! Vocês foram muito importantes para mim em momentos muito difíceis lá atrás, e continuam sendo até hoje. Se eu puder ouvir cada desabafo e ajudar nem que seja com as minhas preces, faço minha obrigação de ser vila e faço com muita honra.

Não nos cobremos tanto! Não somos perfeitas, mas somos maravilhosas do jeito que somos e felizes são os que convivem conosco!

Amo vocês. Admiro, respeito, me inspiro em cada uma e torço demais por cada uma. E estou aqui, com milhas falhas e imperfeições, pronta para ajudar, ouvir e abraçar todas e a cada uma.

Beijo, me liga.


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Obs. 1: Esse texto foi na verdade uma conversa, aqui levemente editada, que ocorreu num grupo de mães maravilhoso do qual participo. Ali se encontram mulheres realmente extraordinárias, mas que, dia a dia e numa sucessão que não pode mais ser considerada coincidência, vêm narrando lutas hercúleas nas suas rotinas, se sentindo inferiores e muito sozinhas. Eu inclusive. A mãe em questão iniciou o seu desabafo já pedindo desculpas e isso me cativou e entristeceu.

No fim, quase pedi desculpas também pelo tanto que divaguei e escrevi, mas não pedi. Estou um pouco cansada, e assustada - admito, pelo tanto de mulheres maravilhosas próximas a mim se sentindo tão por baixo e tão sozinhas. E eu que achei que era só eu... Por que nos sentimos tão por baixo? Que parâmetros são esses que nos colocamos e enlouquecemos para alcançar, todos os dias? Por que não conseguimos ser felizes com o que conquistamos? E por que tão sozinhas? Nos falta coragem de pedir ajuda ou falta ajuda mesmo?

Tenho me questionado muito. E sigo em busca de respostas. E de leveza – para mim e para elas, todas elas.

Obs. 2: A vila em questão é daquele dito africano de que é necessário uma vila para criar uma criança. Eu quero uma vila para as minhas, e quero ser vila para as outras. Sim, porque nesse nosso mundo de hoje isso é uma construção, não uma realidade dada...

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